domingo, 1 de outubro de 2017

O tempo que leva pra cozinhar



Hoje, enquanto cozinhava, e minha cachorra se acomodava logo atrás de mim num tapetinho da cozinha, não sei se foi cheiro do tempero queimando ou o calor que subia da panela que me lembrou seus gostos culinários e seu amor pelo quente verão, mas pensei em você.
Pensei como em tão pouco tempo, e como aquele fogo que parecia tão ameno, queimou o alho e mudou o gosto de tudo. Pensei que cozinhar é muito parecido com amar, é sempre um risco, há sempre aquele risco pontual de amargar.
Lembrei de como a gente ria, de como eu conseguia acertar o sal já na primeira medida, e daquela biografia que a gente comentava enquanto comia. É estranho como o mesmo fogo que queima, também cozinha e transforma o alimento, parece que tudo é uma questão de tempo.
Cozinhar no calor é difícil, até mesmo pra quem gosta. E pensar que planejei tantos pratos e já tinha todo um cardápio para todas nossas datas comemorativas... O tempo realmente é muito engraçado...
Soube que você anda comendo bem: frutas, verduras, duas colheres de arroz e uma concha de feijão. Come de quatro em quatro horas, bebe dois litros de água. Mas aquela cervejinha é sagrada.  Você tá tentando equilibrar as coisas, enquanto eu sou mesmo esse desequilíbrio. Eu gosto do alho bem douradinho, para dar aquele saborzinho, mas pra isso, preciso estar sempre correndo o risco.
Já você prefere o alho meio cru, que deixa gosto forte na boca, que fica ali, durando a tarde toda. Sou mais o sabor que o gosto. Porque o sabor passa, acaba, mas e o prazer que ele dá enquanto você come? O gosto fica ali instaurado, sem serventia nenhuma. Você pode até escovar os dentes, passar enxaguante bucal, mas o gosto não passa, daí você fica lembrando sempre da comida do almoço e ela já acabou. Você se preocupa demais com as propriedades, eu estou mais interessada em impressionar meu paladar. Mas eu nem acredito que isso seja questão de escolha...
No fim, o alho queimou mesmo. Mas não todo. Saí tropeçando na cachorra, joguei água na panela. Os pedacinhos de alho queimado flutuaram, fiz o trabalho de reconhecer e retirar. O fogo não conseguiu acabar com tudo, ou foi o tempo que deixei no fogo que quase acabou com tudo? Essa coisa de se expor tem mesmo desses questionamentos. De colocar a panela no fogo e não cuidar do tempo, de se distrair com qualquer outro pensamento. O fogo queima mesmo.

A comida não ficou lá aquelas coisas, mas tá bom pra um almoço sem companhia. Eu nem lembro mesmo qual era o sabor que me pegava antes de você aparecer. Só queria me vingar do tempo e fazer esses 15 segundos, que queimaram meu alho e mudou o gosto de tudo, que também foi o tempo que durou nosso último beijo, durar a eternidade que foi te esperar chegar. Queria que o tempo não pudesse estragar.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Da tua verdade, fiz cola

Adoraria te ver dedilhar o violão e não ter que me preocupar com o que pôr do Spotify enquanto cozinho pra você. Adoraria você procurando o controle no escuro, encontrando alguma parte de mim, perturbando meu sono por alguns segundos, porque isso significaria, pelo menos, que você estava ali.
Adoraria viajar de moto, exatos 126 quilômetros, experimentar toda liberdade e vento na cara pra depois me sufocar no seu quarto, nos seus braços e deixar de respirar com seus beijos. E como você já sabe o que bate mais forte meu coração e eu jamais te mataria em mim, sentiríamos uma o coração da outra pulsar sob nossos corpos.
Adoraria poder te olhar de novo, e receber teu olhar de volta, e me enganar que tenho certeza sobre tudo. Certezas sobre as suas incertezas, fugas e silêncios. E eu nem as tenho.
Adoraria ouvir mais álbuns que quase ninguém conhece, mas que ainda têm cem por cento de chance de vingar; poder ouvir suas músicas sem chorar; pegar todo bem que me faz e me alegrar.
Adoraria não ter que planejar, pra também não ter como cancelar. Adoraria poder te ver partir com a esperança de te ver voltar. E claro que eu já sei sair, mas adoraria poder entrar, e ficar, e esperar até o café esfriar.
Adoraria conversar sobre não saber acabar as coisas e você relembrar uma música que lembra que as coisas acabam.

Mas vou fazer como prometi. Na tentativa de não ter nem dor nem dano, deixar tudo fluir. E quando fluir pra outro lugar, pro lugar que você quer estar, depois de um espaço que é nosso não nos juntar, você ainda vai me encontrar. Porque o Universo fez o mundo rodar, planar, e recomeçar inúmeras vezes até a gente se trombar, e o bem que ele me entregou e que agora é meu, porque eu quero, ele também será seu.  

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Agora sim a última carta

Antes dessa carta, te escrevi uma última carta, talvez a mais linda das últimas cartas que te escrevi. Afinal, tiveram várias últimas, mas só essa, eu acredito, que tinha consciência que era o fim. As cartas leem a gente.
Comecei a explorar o meu coração e percebi como nosso sentimento estava inacessível. Passei por todas as lembranças boas, todas as sensações, do primeiro beijo, do primeiro toque, do arrepio. Mas a gente não evoluiu. Ficamos ali, presas no primeiro beijo, no primeiro toque, no arrepio.
Tudo bem, foram alguns anos, é claro que nos aproximamos, nos envolvemos, ficamos muito íntimas. Criamos nossa vida, nosso mundo, nossa rotina. Criamos nosso amor, nossa maneira de nos fazer felizes, um olhar só nosso. Criamos nossos momentos incríveis, nossas singularidades, nossas viagens e sonhos... E agora, olhando assim, tão de perto, mas de fora da gente, vejo que criamos um ideal porque nossa realidade era impossível.
Manter os pés no chão, seria aceitar, assumir, gritar, compreender, dispor-se ao outro, mas isso estava muito distante de nós, não é? No mundo dos sonhos, seriamos perfeitas, mas não existe perfeição na realidade, ainda bem, e por isso, ela não nos cabe.
E sim, você sabe que sim, você era meu sonho. Eu acreditava nisso, vivia isso, esse amor que eu senti no primeiro beijo, que nasceu e ficou ali pairando como um beija-flor diante de uma flor sempre foi o mesmo. Pairando, triscando para se alimentar, para se sentir bem, melhor e vivo. Então ficou claro que nunca foi sobre nós, foi sempre sobre você, foi sempre sobre mim, mas nunca sobre nós.
Foi sobre quem criamos para viver esse sonho, foi sobre ideal, por isso, todas as vezes que a vida chamava, a gente se desencontrava. A realidade sempre foi nosso ponto de desencontro. E eu amo a realidade.
Ainda que você diga, e com razão, que eu reclamo demais dessa realidade e que nem sempre ela me carrega com carinho nos braços, eu amo a realidade. É ela quem me faz ser e existir, pensar, sentir, ir e voltar. É ela que me movimenta. E sim, eu também preciso de movimento.
Suspender-se e olhar tudo de cima é angustiante, é não fazer nada além de assistir as vivências do outro e fingir que são nossas. É sentir com o coração do outro, e não, eu não quis dizer sobre ter empatia. É sobre estar triste e incompleta mesmo, distante da essência, como se algo estivesse faltando sempre, mesmo que não se saiba o quê.
Antes de me odiar, saiba que fui muito feliz, um tipo de felicidade rara, não me pergunte o porquê agora, não saberia responder. Mas ao chegar ao fim da carta, já estava sendo o pior de mim. E a mais linda carta que já tinha escrito transformou-se no meu pior medo saindo do armário, na pior versão de mim: frágil, vulnerável e distante.
Mesmo assim te entreguei a carta, afinal, era a mais linda carta que eu já tinha escrito e só aquele finalzinho que estava ruim demais. Poderia ser irrelevante.
Mas não foi, né? Foi só uma espécie de humilhação permitida e criada por mim mesmo. Mais um silêncio absurdo corroendo a mais linda carta que eu já tinha escrito e você não pode, quer dizer, não quis, nem sequer acenar que tinha lido.
De repente essa carta era a perfeita metáfora do que eu sentia em relação a nós, quer dizer, em relação a você e eu. Eu tinha o mais lindo sentimento já sentido em mim, mas alguns monstros sempre saem do armário, e eu não conseguia sentir tudo de novo, de uma nova forma, sem as partes ruins, por isso, te entregava tudo mesmo assim. Mas todo mundo tem disso, né? Um pouco de sombra significa que há luz também. Por isso eu te entregava mesmo assim. Era o que eu tinha, era para a parte boa ser maior que a ruim.
Mas num sonho não cabe sombras, senão vira pesadelo, e é por isso que eu não caibo em você. Não porque sou sombra, mas porque não posso ser pesadelo, e pra isso, teríamos que viver o real, o que somos, e é impossível pra você, não é?
Nem espero que leia essa carta, agora sim, a última carta. Não espero porque tudo nela é irrelevante, e sim, agora você pode trata-la dessa maneira.

Estou acordada. E ouvindo uma música bem alta.